ele está sentado na frente do computador
fumando um cigarro mentolado e tomando uma cerveja quente
porque decidiu desligar a geladeira
as camadas de gelo do congelador estavam tomando a cozinha inteira
pra fritar um ovo pela manhã ele tinha que colocar aqueles casacos de esquimó
está em frente ao computador tentando escrever alguma coisa
coisas a fazer:
a) um e-mail para a mãe pedindo dinheiro emprestado
b) pagar uma conta no banco via internet
c) mandar um e-mail declarando seu amor
d) baixar a segunda temporada do The Walking Dead
e) escrever um conto
ele pensa, ele pensa, e ele pensa de novo
nada a fazer - já diria o sábio
ele começa:
mãe...sabe o que é...eu não paguei a luz do mês passado
apaga tudo
ele começa:
o site do bradesco não parece seguro essa hora da madrugada
ele começa:
eu acho que estou apaixonado por você...
ele apaga tudo
ele começa:
o download está demorado demais
ele cancela
ele começa:
ele está sentado na frente do computador
acende mais um cigarro mentolado e vai buscar mais uma cerveja quente na cozinha lago,
porque o gelo já derreteu
ele volta e respira fundo, tira as teias que estão no teclado
ele começa de novo:
um dos melhores elogios que já me fizeram foi me comparando ao abismo kunderiano
quando você disse que iria colocar cores de almodovar na minha realidade burtoniana
eu perdi o chão, eu perdi o céu, eu perdi o controle do que estou sentindo
ele apaga
ele coloca Nina Simone cantando Feeling Good
quando o sopro entra ele desgruda da cadeira e dança na água que está tomando o escritório
ele começa mais uma vez:
mãe...sabe o que é...eu não paguei a água do mês passado
ele apaga mais uma vez
ele começa interminavelmente sempre:
a melhor escolha que fiz foi ver os fogos de artifício explodindo do seu lado
a melhor coisa que fiz foi confira em você
a melhor coisa que escolhi foi ficar com você
ele apaga interminavelmente sempre:
ele volta a grudar na cadeira, a água já está nos seus joelhos
ele precisa começar isso:
essa espera interminável de dias que passam e eu não te vejo são como tempo perdido
tempo não vivido, tempo perdido,
eu perco meus dias assistindo filmes repetidos incessantemente pra ver as horas passando
pra que o calendário chegue mais perto da data esperada
perco meus dias visitando exposições sem olhar a arte que está na minha frente
passo os dias bebendo pra saber se o alcool consegue me fazer hibernar até lá
(mas ele só me faz ir ao banheiro)
ele apaga tudo, especialmente a última parte
a água passou dos quadris
ele escuta Collective Soul tocando Run, clichê ele sabe, mas ele gosta
está no seu Diversos IX, ou X
ele começa logo porque logo estará morrendo afogado:
cada detalhe do seu corpo, do seu rosto está impresso na minha memória
cada toque que eu relembro no meu corpo não chega aos pés da realidade que é ter você do meu lado
eu pensei que iria esquecer, que o tempo iria passar, até fiz outra pessoa me querer
no meio do caminho de um simples pensar eu desisti
porque você me preenche todos os pensamentos, só não mais do que uma pequena coisinha birrenta
ele apaga porque a água já está chegando no computador e ele pode quebrar a qualquer momento
ele começa pela última vez:
ainda dá tempo de uma última música, ele escolhe Beirut - Goshen
não existe, não pode existir comparação, você é única
e nessa individualidade você me conquistou de tal forma que eu me sinto
vulnerável
eu tenho medo
mas eu quero tentar
a água encobre toda a casa
ele sai nadando em direção ao mar...